Especialistas advertem para a necessidade de nova reforma previdenciária diante de cenário deficitário

Projeções indicam rombo de R$ 326,2 bilhões em 2024, enquanto o envelhecimento da população e a informalidade crescente impulsionam desafios.

Do Poder360

Para especialistas consultados pelo Poder360, a trajetória do RGPS (Regime Geral da Previdência Social) leva à necessidade de uma nova reforma do sistema. Em 2019, durante a Presidência de Jair Bolsonaro (PL), o Congresso promulgou a última mudança nas regras.

Em 2024, as contas envolvendo a Seguridade Social devem apresentar um rombo de R$ 326,2 bilhões (2,5% do PIB), segundo as projeções do Balanço Geral da União de 2023, divulgado pelo Tesouro Nacional. Se nada for feito, em 2100 a necessidade de financiamento poderá atingir R$ 25,5 trilhões.

Há ao menos 3 fatores que influenciam a trajetória crescente do deficit previdenciário, uma “bomba-relógio” nas contas públicas:

1) crescimento da informalidade – houve aumento de 26,7% no número de trabalhadores sem carteira assinada de 2016 a 2023, de acordo com levantamento da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) com base em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No ano passado, atingiu 13,5 milhões. O resultado indica a tendência de “uberização” no mercado de trabalho;

2) desaceleração entre formais – houve crescimento de 3% em 2023 ante 2022 entre os que têm carteira assinada: o estoque saiu de 36,9 milhões para 38 milhões. No ano anterior, a alta havia sido de 6,9%;

3) envelhecimento dos brasileiros – a população com 65 anos ou mais aumentou 6,5% de 2010 a 2022: saiu de 14,1 milhões para 22,2 milhões. Esse grupo representa 10,9% dos brasileiros.

O crescimento do número de idosos no Brasil resulta em mais gastos com aposentadorias. Ao mesmo tempo, há uma redução nas contribuições ao sistema previdenciário. Tudo isso atrelado ao avanço da informalidade –quem está nessa condição não repassa valores à Previdência.

Ecio Costa, economista e professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), afirma ser preciso criar condições para atrair os autônomos e informais. Além disso, reforça a importância de uma reforma mais ampla.

“Uma solução interessante é fazer com que a reforma tenha um formato parecido com o da previdência privada, com capitalização. É algo adotado por outros países e torna o regime mais sustentável. Autônomos e informais podem ser atraídos”, declara.

O especialista diz que a diminuição da taxa de natalidade no país também causa impacto. “Os mais jovens estão tendo menos filhos e isso consequentemente traz um impacto na base da pirâmide, que sustenta a Previdência. Assim, a Previdência ela está fadada a quebrar”, declara.

Costa afirma que a situação faz com que o governo tenha de fazer aportes cada vez maiores.

Ao tomar posse em 3 de janeiro de 2023, o ministro Carlos Lupi sinalizou não enxergar necessidade de mudança ao dizer que a Previdência “não é deficitária”.

O Poder360 procurou o Ministério da Previdência para saber se tem interesse em se pronunciar sobre os dados apresentados nesta reportagem e se há algum plano em curso para reduzir a necessidade de financiamento, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Rombo nas prefeituras

A CNM (Confederação Nacional dos Municípios) afirma que as dívidas previdenciárias das cidades com regime próprio totalizam R$ 43,1 bilhões. A entidade diz ter preocupação em relação ao endividamento das prefeituras.

O advogado Pedro Melchior afirma que a dívida previdenciária crescente tem comprometido a saúde financeira das cidades brasileiras. “Hoje, as prefeituras utilizam parte da sua arrecadação para fazer aportes aos sistemas da Previdência porque o recolhimento com os servidores não é mais suficiente, principalmente nos pequenos e nos médios municípios”, declara.

Taxa de emprego obsoleto

Com o avanço da informalidade e o envelhecimento da população, o percentual da taxa de desemprego segue em patamar baixo: 7,8%. O IBGE pesquisa o desemprego em algumas regiões metropolitanas, e não em todo o Brasil.

O órgão desconsidera as pessoas que param de procurar emprego depois de algum tempo –são desempregados, mas saem da estatística oficial.

Arrecadação em alta

A arrecadação do governo federal somou R$ 190,6 bilhões em março. É o maior valor para o mês desde 1995, o início da série histórica.

Cresceu 7,22% em termos reais (corrigidos pela inflação) na comparação com março de 2023, segundo relatório da Receita Federal.

No 1º trimestre, a arrecadação somou R$ 660,85 bilhões em valores atuais, o que também é recorde. Representa alta real de 8,36% em comparação com o mesmo período do ano passado.

A alta da receita ajuda em parte o governo a cobrir o rombo da Previdência.

INSS Almeja Reduzir Prazo de Concessão de Aposentadoria para 30 Dias até 2024

Presidente do INSS Revela Estratégias para Enfrentar Desafios e Reduzir Fila de 1,5 Milhão de Pessoas.

Em uma entrevista para o portal R7, o presidente do INSS revelou que pretende reduzir o prazo da concessão de aposentadorias para 30 dias até o fim de 2024. Atualmente, o tempo médio de espera é de 47 dias.

Além disso, ainda de acordo com ele, existem 1,5 milhão de pessoas na fila. O objetivo é reduzi-la. O presidente do INSS também defende que esperar de cinco a sete meses pelo benefício não é algo positivo.

Diante dessa conjuntura, é importante ressaltar a desinformação previdenciária como um dos motivos pelos quais existe tanta demora na concessão dos benefícios.

O advogado Filipe Montalvão, CEO do Grupo Montalvão, compartilha uma história marcante, destacando como a desinformação previdenciária pode moldar escolhas com impactos duradouros na vida dos indivíduos. O relato de um senhor que passou cerca de 12 anos sem se aposentar, acreditando que não tinha direito ao benefício. Isso ocorreu devido ao fato de ele já ser beneficiário de uma pensão por morte e temia que solicitar a aposentadoria pudesse resultar na perda da pensão.

Além disso, ele nunca contribuiu para o INSS, sustentando a mesma justificativa. No entanto, faltando apenas alguns meses para atingir a idade da aposentadoria, o advogado analisou o caso e constatou que o senhor tinha direito à aposentadoria há 12 anos, e foi concedido a ele o benefício.

Filipe Montalvão enfatiza a utilidade do CRM no software jurídico ADVBOX, contribuindo para uma administração eficaz ao identificar possíveis obstáculos e facilitar a tomada de decisões embasadas em dados. Destaca-se também a importância da abordagem proativa de cobrança junto ao INSS e ao judiciário, considerada crucial para evitar atrasos e assegurar a efetividade dos serviços oferecidos. Nesse contexto, o controle de processos e o monitoramento rigoroso de prazos são elementos fundamentais para otimizar a operação do escritório.

Consequências da desinformação previdenciária

A desinformação previdenciária pode acarretar consequências significativas para os indivíduos, levando-os a tomar decisões que comprometem seus direitos essenciais.

Um exemplo é o caso do senhor que postergou sua aposentadoria por longos 12 anos, fundamentado na crença equivocada de que, ao requerer o benefício, poderia perder a pensão por morte da qual já era beneficiário.

Sendo assim, a ausência de esclarecimentos adequados contribuiu para uma decisão prejudicial, prolongando desnecessariamente o acesso aos seus direitos previdenciários.

A falta de informação também pode resultar em escolhas financeiras desvantajosas, impactando diretamente o bem-estar econômico dos indivíduos. Muitas vezes, a falta de compreensão sobre os detalhes do sistema previdenciário leva a decisões adiadas ou evitadas, resultando em prejuízos financeiros substanciais. A desinformação, nesse contexto, emerge como um fator crítico que pode afetar adversamente a segurança financeira a longo prazo dos beneficiários.

Ademais, a desinformação previdenciária contribui para a perpetuação de mitos e receios infundados, impedindo que os indivíduos busquem ativamente os benefícios a que têm direito. Esclarecimentos inadequados sobre as implicações de requerer aposentadoria, por exemplo, podem criar barreiras desnecessárias e desencorajar a busca por direitos legítimos.

Nesse contexto, a disseminação de informações precisas e acessíveis torna-se importante para empoderar os beneficiários e orientá-los a tomar decisões informadas em relação aos seus direitos previdenciários.

Perspectivas futuras

À medida que adentramos o futuro da área previdenciária, é imperativo examinar as tendências emergentes nas leis previdenciárias que irão moldar o cenário dos benefícios.

Uma das principais diretrizes que se delineiam é a busca por maior flexibilidade e adaptabilidade nos sistemas previdenciários, visando atender às necessidades diversificadas da força de trabalho em constante evolução. Dessa forma, antecipa-se uma maior ênfase na implementação de políticas que permitam aos beneficiários personalizar suas opções de benefícios de acordo com suas circunstâncias individuais, refletindo a crescente valorização da autonomia e da diversidade nas escolhas previdenciárias.

Além disso, observa-se uma tendência crescente em alinhar as leis previdenciárias com os avanços tecnológicos. A integração de tecnologias inovadoras, como inteligência artificial e automação, pode simplificar processos, agilizar a tomada de decisões e melhorar a eficiência administrativa.

Contudo, essa transformação digital também demandará uma preparação proativa por parte dos beneficiários, que precisam familiarizar-se com as plataformas eletrônicas e novas práticas para garantir o pleno aproveitamento dos benefícios previdenciários.

Em última análise, a preparação antecipada torna-se importante diante dessas mudanças dinâmicas, capacitando os beneficiários a navegarem eficazmente pelos desafios e oportunidades que se apresentarão nas futuras evoluções das leis previdenciárias.